Por Bianca Rocha
26 de março de 2026
Conteúdo publicado na O Brasilianista
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Imagem: Freepik
Hoje a economia global atravessa um momento de maior sensibilidade por inflação persistente, juros elevados nos Estados Unidos e incertezas geopolíticas diante crise no Oriente Médio. O Federal Reserve (Fed) indicou que deve realizar apenas um corte de juros ao longo de 2026, mantendo uma postura considerada “defensiva”. A avaliação é de Wagner Moraes, economista e CEO da A&S Partners, uma venture builder financeira, em entrevista exclusiva.
De acordo com o economista, a decisão anunciada após a reunião de 18 de março de 2026, que manteve os juros na faixa entre 3,50% e 3,75%, reflete um ambiente mais desafiador. Ainda, o Fed também revisou para cima a projeção da inflação medida pelo PCE, estimando 2,7% em 2026, além de reconhecer que os efeitos do conflito no Oriente Médio permanecem incertos para a economia americana.
No Brasil, o cenário externo já impacta diretamente a condução da política monetária. O Comitê de Política Monetária (Copom) iniciou o ciclo de queda de juros e reduziu a Selic para 14,75%, mas adotou um tom mais cauteloso diante do ambiente internacional. A expectativa para a taxa básica subiu de 12,25% para 12,50% ao longo do ano.
Para Moraes, esse conjunto de fatores não indica colapso econômico, mas aponta para um momento de maior aversão ao risco.
“O mundo não está em colapso, mas entrou numa fase em que o prêmio de risco subiu e a margem de erro dos bancos centrais ficou bem menor.”
Política monetária em modo defensivo
A sinalização de apenas um corte de juros por parte do Fed não deve ser interpretada como resposta a uma crise aguda, em sua avaliação. O comportamento da autoridade monetária americana revela prudência diante de uma economia ainda resiliente. Em cenários de crise mais severa, a tendência seria de cortes mais rápidos e intensos para estimular a atividade econômica.
“Se estivéssemos diante de uma crise mais aguda, o movimento seria outro cortes rápidos, mais intensos, para sustentar atividade. Não é isso que está acontecendo.”
Assim, conforme o especialista, a postura atual indica que o banco central prefere evitar um afrouxamento prematuro que possa precisar ser revertido posteriormente.
“O que temos hoje é uma economia americana ainda resiliente, com inflação acima da meta e um banco central que prefere errar pela prudência do que antecipar um afrouxamento que pode ter que ser revertido depois. Em resumo, não é crise. É política monetária ainda em modo defensivo.”
Guerra influencia, mas não determina cenário
Embora o conflito no Oriente Médio tenha elevado o nível de incerteza global, o especialista avalia que ele não é o principal fator por trás da postura mais rígida do Fed. O economista ainda ressalta que a inflação americana continua sendo o elemento central da equação.
De acordo com ele, a guerra impacta principalmente por meio dos preços de energia, petróleo e cadeias logísticas, o que contribui para aumentar a cautela. No entanto, o próprio Fed reconhece que os desdobramentos do conflito ainda são incertos.
“Eu não atribuiria esse cenário exclusivamente à guerra no Oriente Médio. Sem dúvida, o conflito entrou no radar e elevou a incerteza, principalmente pelo canal do petróleo, da energia e das cadeias logísticas. Isso pesa. Mas o ponto central continua sendo a inflação americana, que ainda mostra resistência.”
Efeitos sobre a Selic
O cenário internacional pode restringir o espaço para cortes mais agressivos na taxa básica brasileira. Juros elevados nos Estados Unidos tornam o diferencial de taxas mais sensível, pressionam o câmbio e ampliam o risco de inflação importada. Esse ambiente exige uma atuação mais conservadora por parte do Banco Central.
“O impacto sobre a Selic é relevante, mesmo que nem sempre fique tão evidente no curto prazo. Quando o juro americano permanece alto por mais tempo, o espaço para cortes mais agressivos no Brasil diminui”, acrescenta.
Os efeitos desse contexto global já chegam ao dia a dia da população. A combinação de dólar pressionado e alta nos preços de energia tende a encarecer itens essenciais. Entre os principais impactos, o especialista destaca combustíveis, frete, energia e alimentos.
Os fertilizantes registraram alta próxima de 37% no mercado internacional, o que afeta diretamente o agronegócio e, consequentemente, os preços dos alimentos. Além disso, o diesel apresenta distorções, com aumentos mais intensos no cenário global do que os repasses realizados no Brasil, o que pode indicar reajustes futuros.
Outro fator relevante é a manutenção do crédito em patamares elevados por mais tempo, diante de uma queda mais lenta da Selic: “Ou seja, o efeito é duplo, custo de vida pressionado e alívio financeiro mais lento”.
Dólar deve permanecer valorizado
A tendência para o câmbio também reflete o ambiente de incerteza. Na avaliação do especialista, o dólar deve seguir estruturalmente fortalecido enquanto persistirem juros elevados nos Estados Unidos e maior aversão ao risco global.
Segundo ele, em momentos de tensão, investidores buscam ativos considerados mais seguros, como a moeda americana. Apesar de o Brasil contar com fatores de amortecimento, como fluxo comercial e diferencial de juros, isso não altera substancialmente o quadro.
“Minha leitura é que o dólar tende a permanecer estruturalmente mais firme enquanto dois fatores estiverem presentes, juros elevados nos Estados Unidos e aumento da aversão ao risco global”, justifica.
Choque energético amplia pressões
O CEO da A&S Partners explica que o chamado choque energético ocorre quando há elevação rápida e significativa nos preços de energia, especialmente petróleo e gás, geralmente associada a conflitos, restrições de oferta ou problemas logísticos.
Esse tipo de movimento tem impacto disseminado na economia, uma vez que a energia está na base de diversos setores, como transporte, indústria e produção agrícola.
“Quando falamos em choque energético, estamos falando de uma alta relevante e relativamente rápida nos preços de energia principalmente petróleo e gás, normalmente associada a guerra, restrição de oferta ou ruptura logística”, diz.
Sem paralelo com 1929, mas com riscos persistentes
Apesar do ambiente mais desafiador, Moraes descarta a possibilidade de uma crise semelhante à de 1929. A crise teve início com a quebra da Bolsa de Nova York e rapidamente se transformou em uma depressão econômica de escala mundial. Naquele momento, o sistema financeiro era frágil, pouco regulado e altamente vulnerável a choques.
Na época os bancos operavam sem mecanismos de proteção aos depósitos, o que levou a uma onda de falências bancárias em cadeia, destruindo poupanças e reduzindo drasticamente o crédito disponível. O economista diz que o sistema financeiro global atual conta com mecanismos de proteção muito mais robustos.
Hoje existem instrumentos de liquidez, regulações mais rigorosas e seguros de depósito que não estavam disponíveis naquele período histórico. Ainda assim o especialista alerta para um cenário de menor conforto macroeconômico, marcado por inflação persistente, crescimento mais fraco e maior volatilidade.
“Eu não vejo um cenário comparável a 1929. Pode haver estresse, volatilidade forte, correções relevantes e até recessões localizadas, mas o sistema financeiro global hoje é incomparavelmente mais protegido do que era naquela época. O risco que eu vejo não é repetição de 1929; é uma combinação mais moderna e mais plausível de inflação persistente, crescimento fraco e volatilidade global elevada”, finaliza.

