Por Mariana Felicio
16 de janeiro de 2026
Conteúdo publicado na Forbes Brasil.
Acesse em: https://forbes.com.br/forbes-money/2026/01/quando-por-que-e-como-ocorre-uma-liquidacao-extrajudicial-bancaria/
A liquidação extrajudicial é um dos regimes de resolução do Banco Central, usado como mecanismo para interromper atividades financeiras de empresas que apresentam grave comprometimento do seu patrimônio ou dificuldade de honrar seus compromissos.
Diferentemente da falência, o processo ocorre fora do Poder Judiciário e é conduzido diretamente pelo órgão regulador. A lógica é conter danos, proteger correntistas e investidores e evitar que os problemas de uma instituição contaminem o restante do mercado e do sistema bancário.
Ao decretar a liquidação, o Banco Central interrompe as operações da instituição, afasta seus administradores e nomeia um liquidante, que passa a ser responsável por administrar os ativos, organizar as dívidas e conduzir o encerramento da empresa. O caráter extrajudicial permite maior agilidade, já que o processo é conduzido por especialistas do próprio sistema regulatório.
Quando o Banco Central pode liquidar uma instituição?
A liquidação costuma ser o último recurso. Antes disso, o BC pode adotar regimes intermediários, como fiscalização intensificada ou intervenção. Quando essas alternativas falham, a liquidação é decretada.
De acordo com o órgão regulador, as razões mais comuns incluem:
- Graves violações às normas do sistema financeiro;
- Insolvência irreversível;
- Risco à estabilidade financeira;
- Fraude ou irregularidades graves na gestão;
- Gestão temerária ou ineficiente, com prejuízo a credores e depositantes.
Em entrevista à Forbes Brasil, o CEO da A&S Partners e especialista em regulamentação do Banco Central, Wagner Moraes, explica que o ponto decisivo costuma ser a combinação entre deterioração patrimonial, falhas de governança e perda de confiança operacional. Segundo ele, quando a recuperação deixa de ser viável, o objetivo passa a ser encerrar a instituição de forma ordenada, preservar valor e repartir perdas conforme a lei.
Quais são as etapas do processo?
A liquidação extrajudicial envolve seis etapas principais. O processo começa com a decretação do regime pelo Banco Central, que também nomeia o liquidante. Em seguida, ocorre a substituição da administração anterior, e o liquidante passa a atuar com amplos poderes de gestão.
Cabe a ele levantar e verificar todos os ativos e passivos da instituição, classificar créditos e administrar a venda de ativos para arrecadar recursos destinados ao pagamento dos credores, respeitando a ordem legal de preferência. Dependendo do tipo de dívida, os credores podem contar com a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), limitada a R$ 250 mil por CPF.
A etapa final é o encerramento do processo, quando o liquidante comunica o fim do regime à Receita Federal e a outros órgãos competentes.
Outras alternativas: intervenção e RAET
Além da liquidação, o Banco Central pode recorrer à intervenção ou ao Regime de Administração Especial Temporária (RAET). A intervenção busca estabilizar a instituição e, se possível, devolvê-la ao funcionamento normal. Já o RAET é aplicado quando o regulador deseja preservar a operação, mas considera necessária uma reestruturação profunda.
Em resumo, a intervenção tenta salvar a instituição, a liquidação encerra suas atividades e o RAET promove uma reestruturação.
Casos emblemáticos no Brasil
Diversas instituições financeiras já passaram por liquidação extrajudicial no país, como o Bamerindus, nos anos 1990; o Banco Santos, em 2004; e o Banco Cruzeiro do Sul, em 2012. Mais recentemente, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master, em novembro de 2025, e da Reag Investimentos, em janeiro de 2026.
Impactos para correntistas, investidores e credores
Os efeitos variam conforme o vínculo do cliente com a instituição. Correntistas e investidores com aplicações cobertas pelo FGC costumam ser ressarcidos dentro do limite garantido. Já credores sem garantia precisam habilitar seus créditos e aguardar o rateio dos recursos arrecadados.
Segundo Moraes, além do impacto financeiro, há um impacto psicológico: o banco deixa de operar normalmente e passa a ser um processo administrativo, no qual o relacionamento ocorre com o liquidante e segue ritos técnicos e legais.
Um processo em evolução
Embora essencial para a estabilidade do sistema financeiro, a liquidação extrajudicial enfrenta críticas, especialmente quanto à duração dos processos e à recuperação limitada de ativos. Ainda assim, a experiência acumulada ao longo do tempo contribuiu para o fortalecimento da regulação bancária no Brasil, mantendo o tema central no debate sobre a melhor forma de resolver crises financeiras com eficiência e segurança.

