Matéria extraída de: https://mercadoeconsumo.com.br/17/08/2026/destaque-do-dia/recuperacao-judicial-comeca-na-divida-mas-depende-do-estoque-para-funcionar
O varejo brasileiro passa por um período de forte pressão, em meio à concorrência com grandes empresas globais de comércio eletrônico, aos juros elevados e à mudança no comportamento dos consumidores. Somente na última semana, Casas Bahia e Marabraz entraram com pedidos de recuperação judicial para reestruturar suas dívidas.
Após registrar oito trimestres de prejuízo, com perda de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, a Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial na noite do domingo, 16, com R$ 17,3 bilhões em dívidas. A varejista também fechou 298 lojas e realizou cerca de 2 mil demissões nas últimas semanas. Com dívidas de R$ 140 milhões e dificuldade de renovação de linhas de crédito por conta de disputadas societárias e de familiares, a Marabraz pediu recuperação judicial no último sábado. A companhia afirma que as lojas continuam funcionando e que pretende preservar a operação e os empregos.
O que aproxima os dois casos é a combinação clássica e perigosa do varejo de bens duráveis: venda dependente de crédito, estoque relevante, custo fixo de loja física e necessidade permanente de capital de giro. Quando o juro sobe, o consumidor compra menos, a inadimplência aumenta e o financiamento da própria empresa fica mais caro ao mesmo tempo.
“As duas redes também têm marcas conhecidas e uma relação histórica com o consumo popular e com a venda parcelada. Isso é um ativo, mas cria exposição maior à renda disponível e às condições de crédito. E, nos dois casos, a confiança da cadeia é decisiva. O varejista precisa que o banco mantenha linha, que o fornecedor entregue e que o consumidor continue comprando. Se um elo perde confiança e corre para se proteger, pode provocar uma crise de liquidez ainda maior”, explica Wagner de Moraes, economista especialista em reestruturação de empresas e CEO da A&S Partners.
Para Cláudio Damasceno, sócio sênior da RGF Associados e coordenador do Monitor RGF BizDoc, quando uma empresa entra em Recuperação Judicial (RJ), a primeira consequência costuma ser a interrupção do fornecimento por parte dos fornecedores. Com isso, a empresa passa a depender do que já possui guardado, e esse estoque é rapidamente consumido, o que pode ferir gravemente a operação se não houver reposição a curto prazo.
“O que vai acontecer depende basicamente de três componentes: primeiro, os fornecedores. Sem isso, ela não tem o que vender. Depois, preservar os canais de venda. Sem isso, ela não tem como distribuir. E preservar os ativos de ponto de venda, o PDV. Então, se a gente consegue preservar produto, canal e PDV, o impacto para o cliente vai ser menor”, afirma.
Nada será como antes
Damasceno destaca que o varejo no mundo todo mudou e não voltará a ser como era há décadas, pois foi transformado pelos avanços tecnológicos. Essa mudança estrutural e o novo comportamento do consumidor, também impactado pela tecnologia, exigem novas respostas das empresas.
“O novo cenário do mercado impõe uma realidade de margens muito depreciadas e menores do que no passado. Além disso, o custo do espaço físico tornou-se inviável para muitas operações. Exemplo disso são as empresas que estão fechando operações em shoppings ou convertendo estoques de imóveis em centros de logística”, afirma.
Isso explica o fechamento das 298 lojas feito pela Casas Bahia, ao fechar operações consideradas caras, principalmente as de shopping centers.
“Fechar loja deficitária e reduzir custo fixo é uma medida correta quando o volume caiu e a unidade não entrega retorno. O fechamento de 298 lojas é relevante e mostra que não se trata de um ajuste “cosmético”. Mas cortar loja e pessoal, sozinho, não recupera uma empresa desse porte”, diz Moraes.
Segundo ele, o teste de verdade virá nos próximos trimestres, quando serão conhecidos o quanto de despesa sai de forma permanente, quanto de venda migra para lojas próximas ou para o digital e quanto simplesmente desaparece. “Existe ainda custo de saída, rescisão, aluguel, logística e eventual perda de escala com fornecedores. Se fechar uma loja ruim preserva a venda em outro canal, ótimo. Se a companhia perde receita, diluição de custos e presença de marca, o ganho pode ser menor do que parece”, diz.
Alerta para o mercado
O fato de a Casas Bahia pedir a recuperação judicial apenas dois anos após a recuperação extrajudicial não é necessariamente um motivo de preocupação. A recuperação extrajudicial de 2024 reestruturou aproximadamente R$ 4,8 bilhões em dívidas financeiras e deu fôlego para a companhia, mas atacou apenas parte do problema.
“Ao mesmo tempo, a recuperação judicial é mais ampla e oferece instrumentos que a extrajudicial não alcança com a mesma força: suspensão de execuções, tratamento coletivo de diferentes classes de credores e proteção contra uma corrida individual por garantias. No caso da Casas Bahia, isso é especialmente importante porque a companhia afirma que retenções de recebíveis de cartão e Pix poderiam comprometer até 60% da entrada mensal de caixa”, afirma Moraes.
Varejo tem mais falências do que recuperações judiciais
Embora grandes varejistas tenham recorrido à recuperação judicial neste ano, o varejo registra a menor densidade de casos entre os grandes segmentos da economia, segundo relatório Monitor RGF-BIZDOC. Foram 986 CNPJs nessa situação no primeiro semestre, uma alta de 20,4% em 12 meses. A proporção é de 0,16 recuperação judicial para cada mil empresas ativas, abaixo da média nacional de 0,30.
Segundo o estudo, o varejo apresenta uma quantidade elevada de falências em comparação com outros segmentos. Foram 686 empresas que chegaram à falência no primeiro semestre, o equivalente a 0,7 falência para cada recuperação judicial. No agronegócio, a proporção é de aproximadamente uma falência para cada 100 recuperações.
A diferença está relacionada ao perfil das atividades. Material de construção, móveis e iluminação, calçados e óptica apresentam mais falências do que recuperações judiciais, pois são negócios com poucos ativos específicos e menor barreira de entrada, o que reduz as possibilidades de reorganização quando a empresa perde capacidade financeira.
No material de construção, foram registradas 1,43 falências para cada recuperação judicial. Em móveis e iluminação, a relação foi de 1,65. No segmento de calçados, chegou a 2,27, enquanto a óptica apresentou 4,20 falências para cada recuperação.
Entre as empresas que recorrem à recuperação judicial, predominam as de porte médio, responsáveis por 50,6% dos casos. As empresas de pequeno porte representam 22,8%, as microempresas, 21,5%, e as grandes empresas, 5,1%.
As sociedades limitadas correspondem a 93% dos devedores. O capital social mediano é de R$ 150 mil, quinze vezes superior ao registrado no agronegócio, de R$ 10 mil.
São Paulo concentra o maior estoque de recuperações judiciais, com 281 CNPJs, ou 28,5% do total nacional. O avanço mais forte no primeiro semestre, porém, ocorreu em Minas Gerais, com alta de 14%, e no Rio Grande do Sul, com 12%.

